BRASÍLIA - O governo brasileiro entrou no front da batalha pelo clima. Diplomaticamente. Tão logo anunciou segunda-feira que o país vai manter a meta voluntária de reduzir a emissão de CO2 em até 38,9%, até 2020, o ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente, telefonou para a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, que está em Copenhague, na Dinamarca. Trataram da estratégia para fazer o Brasil liderar os países na grita por um acordo mundial pelo clima, a fim de pressionar Estados Unidos e China a reverem suas posições de se isentarem do acordo.
Segundo Minc, o plano, já aprovado pelo presidente Lula, é trabalhar em duas frentes. Primeiro, “uma mobilização de opinião popular, principalmente nos Estados Unidos”, conta o ministro, e no mundo todo, envolvendo ONGs e ambientalistas. Organizações já confirmaram ao JB que o movimento começou.
– Já começou uma reação rápida, contudente – avalia Minc. – Temos que criar um constrangimento. Vamos fazer uma cobrança. China e EUA são dois países. O mundo tem 200!
A outra estratégia é no campo diplomático, e já conta com a assistência do Itamaraty. Minc e Dilma aumentaram segunda-feira os contatos com presidentes e representantes dos países da União Europeia e dos outros continentes. A ideia é elaborar uma grande força-tarefa liderada pelo Brasil a partir do dia 7 de dezembro, na Conferência de Copenhague. Dessa união, pode sair um documento assinado por todos.
– A Dilma concordou com essa ideia, ela já começou a fazer os contatos lá (em Copenhague) – diz Minc ao JB. – Até lá, deve sair, sim, um manifesto muito forte.
Cartão de visita
O ministro Carlos Minc já faz contato com México, África do Sul e Indonésia. A partir de terça-feira, vai procurar a Noruega – parceira do fundo da Amazônia – Suécia e Holanda.
Tanto Dilma, na Europa, quanto Minc, no Brasil, usam o mesmo cartão de visitas. Falam em nome do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. E ambos têm o aval do chefe. Lula não só concordou com o plano traçado segunda-feira, diz Minc, como vai levar essa bandeira sem medo a Copenhague para pressionar EUA e China.
Segundo Minc, o Brasil deve aproveitar o ótimo momento que o país vive, e a grande popularidade do presidente Lula pelo mundo, para fazer dele um líder também nessa questão do meio ambiente. O ministro acredita que a palavra de Lula, em Copenhague, pode ter efeito junto a outros países para a carta final desse esperado manifesto.
Batalha
– É uma insensatez planetária – critica Minc, sobre a posição dos dois maiores poluidores do planeta de não ratificarem um acordo na Conferência de Copenhague. – Não pode haver o abraço dos poluidores que condene o planeta a virar um deserto.
O ministro acredita que a mobilização popular – via internet, TV, manifesto de ONGs – a priori pode fazer os Estados Unidos, especialmente, sentarem à mesa na Dinamarca para debater o assunto. E usa o Prêmio Nobel para citar o presidente americano.
– Depois que o Barack Obama ganhou o Nobel, ele surge como esperança e isso se apaga, de repente? – ironiza.
Com a recente revelação de que o país teve o menor desmatamento em 21 anos, o tema tornou-se tão importante para o governo que a reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social segunda-feira, em Brasília, foi toda pautada para o assunto. Ao sair do encontro, antes de traçar a estratégia com Dilma e o presidente Lula, o ministro Minc já se mostrava irritado com a posição de EUA e China.
– Foi uma ducha de água quente, que aumentou mais ainda a já elevada temperatura do planeta. Vamos forçar até o último minuto, até com base no avanço que a gente fez de proposta, com a redução dos desmatamentos na Amazônia.
China diz “estudar” proposta de adiamento
A China ainda não confirmou oficialmente seu apoio ao adiamento da assinatura de um pacto climático previsto inicialmente para dezembro, durante a conferência sobre o clima de Copenhague. Um e-mail enviado segunda-feira pelo Ministério do Exterior chinês à agência de notícias Reuters informa que o país estuda a proposta feita em Cingapura no fim de semana, de deixar a definição sobre metas de redução de gases do efeito estufa para depois do encontro na Dinamarca.
“A China tomou nota da ideia proposta pelas partes envolvidas de se fechar um ‘acordo político’ e a está estudando”, diz um comunicado oficial, enviado em resposta a uma pergunta sobre a posição de Pequim sobre a questão.
Durante uma reunião de ministros de Meio Ambuiente ocorrida segunda-feira, em Copenhague, numa espécie de preparação para a cúpula de dezembro, a Dinamarca reiterou a proposta de adiamento do acodo climático. A ministra dinamarquesa Connie Hedegaard defende que o novo prazo para um acordo final seja estabelecido para dezembro de 2010, quando uma nova negociação ocorrerá no México. Para a cúpula do mês que vem, a Dinamarca propõe a assinatura de um acordo político, que trataria de elementos-chave relacionados a redução de gases do efeito estufa e a novos financiamentos para países em desenvolvimento.
Impasse
A decisão de adiar a assinatura de um acordo final sobre o clima para 2010 agrada principalmente aos Estados Unidos, já que o país vive um impasse causado pela não aprovação pelo Congresso norte-americano da proposta de redução de gases do efeito estufa feita pelo presidente Barack Obama. Yvo de Boer, chefe do Secretariado de Mudança Climática da ONU, disse ser favorável a um adiamento máximo de seis meses no tratado definitivo – até a reunião de Bonn, em meados de 2010. Isso daria tempo ao Senado dos EUA para aprovar uma nova lei de limite para as emissões de carbono.
Enquanto as nações desenvolvidas falam em adiamento, os países pobres fazem pressão por uma definição imediata. Em Roma, uma cúpula da ONU a respeito de alimentos serviu de palanque para que líderes mundiais, entre eles o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, defendessem a assinatura do acordo. Além de cobrar mais atitude dos países ricos em relação à fome no mundo, Lula também se manifestou sobre a questão climática.
Após se encontrar com o presidente italiano, Silvio Berlusconi, o líder brasileiro criticou a postura de EUA e China. Lula disse que telefonará para o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e para o presidente chinês, Hu Jintao, para conversar sobre a negociação do clima. A proposta do Brasil é reduzir em quase 38,9% as emissões dos gases causadores do efeito estufa até 2020. Lula disse esperar que a iniciativa brasileira possa servir de motivação para outros países.
– Por que o Brasil tomou a iniciativa de apresentar números? É para a gente cobrar daqueles que passam o tempo inteiro querendo dar lições ao Brasil. – afirmou o presidente. – Portanto, se o Brasil fez sua parte, eles também terão que fazer. Se não apresentar hoje, apresenta amanhã, se não for amanhã, mês que vem ou ano que vem. Mas o fato é que não tem como escapar e todos terão que apresentar números.
Ban ki-Moon
O secretário-geral da ONU, Ban ki-Moon, relacionou a redução da emissão de gases do efeito estufa diretamente com a questão da fome no mundo:
– Não pode haver segurança alimentar sem segurança climática – disse ele. – No mês que vem, em Copenhague, precisamos de um acordo abrangente que forneça uma base firme para um pacto legalmente compulsório sobre mudanças climáticas.
Os países mais pobres também insistiram na questão, afirmando que ainda é possível definir em Copenhague, no mês que vem, um novo tratado climático global.
– Acreditamos que um tratado de cumprimento internacional obrigatório ainda seja possível – disse Michael Church, ministro do Meio Ambiente de Granada, falando em nome de mais de 40 pequenos países que estão entre os mais ameaçados pelo aquecimento global.
ONGs vão fazer mobilização mundial para salvar conferência
Luciana Abade
A tentativa dos Estados Unidos e da China de adiarem a definição de um novo acordo climático para o próximo ano não surpreendeu as organizações não governamentais de meio ambiente aqui no Brasil. Elas, inclusive, consideram um erro o anúncio dos dois países ser chamado de recuo, uma vez que “nunca houve a intenção deles de fechar qualquer meta de mitigação de gases estufa”, segundo ressaltou o presidente da Amigos da Terra Amazônia, Roberto Smeraldi. O próprio ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, disse segunda-feira que as duas nações devem ter adiantado o anúncio para evitar frustrações futuras.
Para as ONGs, o Brasil deve continuar com o compromisso assumido de diminuir até 38,9% das emissões até 2020 e aproveitar o momento para ser protagonista na luta mundial pela salvação do clima. E apesar de não estarem surpresas, já estão mobilizadas para uma manifestação internacional contra a decisão.
– Esta é a grande oportunidade de o Brasil ser protagonista e não deixar nas mão dos Estados Unidos as decisões sobre meio ambiente. Não tem nem sentido. Eles não têm nem mais um palmo de floresta lá – afirmou o diretor de mobilização da SOS Mata Atlântica, Mario Mantovani. – Eles têm é que atuar como caixa e pagar para a gente preservar a floresta.
Mantovani acredita que a postura norte-americana vai deixar Obama frágil. E se dentro daquele país Al Gore vai sair ganhado, no cenário mundial é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, “que tem comparecido a todas as reuniões internacionais sobre clima” quem vai ganhar visibilidade. Apesar de já esperarem esta postura das duas potências, Mantovani ressalta que a presença da China em Copenhague é de suma importância, mesmo sem metas para fixar, por ela ser “o fiel da balança”.
Coordenador do Programa de Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil, Carlos Rittl acredita que ainda é possível fazer China e Estados Unidos mudarem de decisão se houver uma pressão política internacional, uma vez que não há tempo hábil para pensar em sanções econômicas:
– Não existe plano B para Copenhague. O que não pode é um acordo mundial ficar a mercê de dois países.
Segundo Rittl, alguns pilares são básicos para Copenhague, entre eles a determinação de quais serão os recursos doados pelos países desenvolvidos para que as nações em desenvolvimento preservem.
– A frustração com a notícia é exagera porque houve uma expectativa exagera em torno de Copenhague – analisa Smeraldi. – O Brasil tem que seguir em frente e fazer o dever de casa porque o mercado global vai começar a exigir uma economia de baixo carbono.
Independente de expectativas, Smeraldi defende que Copenhague sirva pelo menos para as nações fechem um número de mitigações que impeça o crescimento de dois graus da temperatura. Essa discussão, no entanto, deve ser baseada em estudos científicos e não em política como vem ocorrendo.
Leandro Mazzini , Jornal do Brasil - 22:21 - 16/11/2009
Postado por Jana Lua